De Manuel Bandeira para a SESTA!!!
Arte de amar
Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus – ou fora do mundo.
As almas são incomunicáveis.
Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.
Porque os corpos se entendem, mas as almas não.
Resta-me desejar um Bom Ano a todos os meus amigos e amigas !!!
A minha homenagem ao António Praia, que decidiu partir, enquanto dormia.
Certamente este poema seria facilmente subscrito por ele daí, aqui o deixar.
Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto.
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.
Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma.
Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.
Podem rezar latim sobre o meu caixão se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
E quando for, quando for, é que será o que é.
Alberto Caeiro
Já há tempo, que este tema me anda a bulir com os nervos e de hoje, não passa.
Ando de bicicleta desde os meus sete, oito anos e foi-me exigido, sempre, que soubesse as regras de trânsito e, acima de tudo que as cumprisse.
Hoje, quem se atreve a passear no meu caso já com os netos ou com os amigos, nos passeios das nossas cidades é constantemente confrontado com ciclistas desde os mais novos aos mais velhos desde os masculinos aos femininos, sem o menor respeito por quem usa essas zonas pedonais para se locomover. Mas, há mais, há os que atravessam, a pedalar, as passadeiras de peões, sem o menor respeito por quem anda a resolver a sua vida, circulando nas vias e que se vê obrigado a ter que "atrapalhar o trânsito", isto sem que as autoridades policiais intrefiram, colocando-os no seu lugar no trânsito citadino.
Fica aqui o meu repúdio por esta situação que acho absurda e que urge ver resolvida. Daí fazer o meu apelo às forças policiais para uma tomada de atenção sobre este assunto.
Voltei!!!
Veremos se a inspiração e o tempo, disponível, me vão permitir uma maior e mais eficaz assiduidade.
MAIS VALE PREVENIR
O ditador estava satisfeito.
O dia tinha-lhe corrido bem.
Mandara fuzilar dezoito opositores, espancar sete jornalistas,
prender quinze intelectuais e expulsar quatro diplomatas
estrangeiros.
Não há dúvida que tinha sido um dia realmente cheio.
Meteu-se no Rolls blindado e, recostado
no banco de trás, ia pensando...
No dia seguinte.
Na destruição da sede do Sindicato,
na prisão do es-Primeiro-Ministro, no interrogatório de alguns detidos,
na tortura dos mais renitentes...
...um sorriso matreiro invadiu o rosto do ditador.
Pelo telefone do automóvel, ordenou a destruição imediata da
sede do Sindicato, a prisão do ex-Primeiro-Ministro
e o acelerar das torturas.
Só depois disso se encostou, de novo, satisfeito.
O seu lema sempre fora:
<<... Não guardes para amanhã, o que podes fazer hoje!>>
in "O Gaço de Barcelos ao Poder" de João Viegas
Desculpa lá óh Vinícios, mas tinha mesmo que ser assim chamado!!!!
Ora bem, por muito afastado que tenha andado, esta é a minha casa e por isso tenho que cá voltar, agora com uma regularidade irregular mas voltar, SEMPRE!!!
Volto, com mais uma história de João Viegas e do seu "O Galo de Barcelos ao Poder".
BANCO É
Entrei no Banco
Como de costume, as pessoas, no interior, acotovelavam-se
formando magotes.
Coloquei-me numa das longas bichas para as caixas.
Lentamente a bicha foi avançando.
Quando só faltavam dois clientes para serem atendidos,
o funcionário colocou no guichet o cartaz
"Encerrado para Almoço" e foi-se embora.
Fiquei furioso.
Comecei a gritar, ameaçando fazer queixa ao gerente.
Afirmei, para quem quis ouvir,
que <<dantes não era assim!!!>>
E que, <<Talvez não soubessem com quem estavam a lidar!>>
Fiz tamanho escarcéu que o caixa voltou atrás e abriu,
de novo, o guichet, especialmente para me atender.
Só, então, saquei do revóver e gritei, imperioso:
<<Mãos ao ar! Isto é um assalto!!!>>
ALENTEJO
Folheia-se o caderno e eis o sul
E o sul é a palavra. E a palavra
Desdobra-se
No espaço com suas letras de
Solstício e de solfejo
Além de ti
Além do Tejo
Verás o rio e talvez o azul
Não o de Mallarmé: soma de branco e de vazio
Mas aquela grande linha onde o abstracto
Começa lentamente a ser o
Sul
Outro é o tempo
Outra a medida
Tão grande a página
Tão curta a escrita
Entre o achigã e a perdiz
Entre chaparro e choupo
Tanto país
E tão pouco
Solidão é companheira
E de senhor são seus modos
Rei do céu de todos
E de chão nenhum
À sombra de uma azinheira
Há sempre sombra para mais um
Na brancura da cal o traço azul
Alentejo é a última utopia
Todas as aves partem para o sul
Todas as aves: como a poesia
Manuel Alegre (Alentejo e ninguém)
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