Sexta-feira, 25 de Abril de 2008

EVOCAÇÃO DE ABRIL

Hoje, 25 de Abril, dia do trigéssimo quarto aniversário da revolução que nos tirou de quarenta e oito anos de ditadura, que nos livrou de uma guerra sem fim, que nos restituíu a dignidade que nos faltava, enquanto povo, decidi que ia ser diferente.
Por isso, ao conhecer o texto de Daniel de Sá, escritor português, dos muitos que estas Ilhas dos Açores deram, ao nosso todo colectivo, não hesitei e disse: "É este o texto que me faltava!"

Deixo-o, aqui para que possam gostar dele, tanto ou mais do que eu!

VIVA O 25 DE ABRIL!


TREZENTAS E QUARENTA PALAVRAS

(Em memória do Capitão Salgueiro Maia e do cantor José Afonso)

Conheces o gosto da anona? E o cheiro do incenso em flor nas noites húmidas? Talvez.

Mas com certeza não serás capaz de os explicar. Nem eu nem ninguém.

Existem coisas assim: os sabores, os cheiros, as cores, os sentimentos... Há muitos milha­res de palavras, mas nenhumas são suficientes para dizer aquilo que só quando se sente se sabe como é.

Eu gostaria de inventar as palavras que faltam à nossa Língua, a todas as línguas do Mundo, para falar de Abril. Em Portugal. Num dia com cravos a florir nas espingardas, porque ninguém queria usá-Ias para matar.

Estavam cansados da guerra, uma guerra má como todas as guerras. Em Angola e em Moçambique e na Guiné. Era o medo em Portugal. Havia verdades que era proibido dizer. Havia muita gente que mal tinha que comer. Havia muita gente sem casa onde morar.

Foi na madrugada de 25 de Abril de 1974. Os homens que mandavam neste país, e que não queriam que ele mudasse, talvez dormissem àquela hora sem sonhar com o que ia aconte­cer. No rádio, uma canção começou: "Grândola, Vila Morena". (Uma revolta que começa com uma canção, sobretudo uma canção como aquela, tem de ser uma revolta boa). Era o sinal combinado. Os militares saíram dos quartéis para dizer ao governo que não o suportavam mais, mas ainda não se sabia quantos portugueses estavam no mesmo lado. Logo se perce­beu que eram quase todos, afinal.

E a revolução tornou-se numa festa tão bonita que esse dia foi um dos mais belos da História de Portugal. Foi uma alegria tão grande que se chegou a pensar ter valido a pena tanto tempo de sofrimento e medo para que ela acontecesse...

Mas não! A água mais apetecida é a que se bebe depois de uma longa e penosa sede, e ninguém se deixa estar dois ou três dias sem beber só para ter um gosto enorme ao beber...

Se eu pudesse inventar as palavras que faltam à nossa Língua para dizer isto melhor, nunca mais haveria alguém capaz de duvidar de como foi lindo aquele dia, nunca mais nin­guém haveria de permitir que alguma coisa, neste país, se parecesse com as coisas ruins de antes. E muito depressa se mudaria o que ainda não houve tempo de mudar.

Daniel de Sá

publicado por felismundo às 08:00
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6 comentários:
De emiele a 25 de Abril de 2008 às 09:07
Claro que sim! Uma boa reflexão.

(Amigo, desculpa um conselho, mas olha que as letras em azul com o fundo preto são dificílimas de ler! Experimenta uma cor muito contrastante)


De felismundo a 25 de Abril de 2008 às 09:54
Emiéle, tens toda a razão!
Sabes, fiz copy paste do original e pensava que se não podia alterar. Já está e, nõa há dúvida que fica bem mais visível.
Não disseste nada do vídeo anterior, não gostaste?
Um bom 25 de Abril para todos!


De Luis Manuel a 25 de Abril de 2008 às 14:33
"Mudar o que ainda não houve tempo de mudar..."
Talvez seja isso, apenas isso, o que ainda nos cumpre concretizar. Ou por outras palavras, criar esse horizonte nas gerações que nos seguem.
Não ! Não quero dizer que da nossa parte, já nada possa ser feito !
Com o condicionalismo próprio da existência humana, diria que temos ainda muito para fazer.
E, certamente os que se sentam ao colo - que essa alegria de ter os netos, hoje, e muitos dias de amanhã seja permanente, ou aqueles que mais crescidos ainda nos tomam por exemplo, não deixarão de nos acompanhar.
Bem haja avô... e avó, e netos, e filhos... e todos que abraça.
Um grande abraço

Gostei da frase que o José escreveu : "Este, foi o primeiro dia, agora, todo o tempo é nosso."
Hoje,Trinta e quatro anos passados, continua a fazer sentido.

Estas "trezentas e querenta palavras" são muito valiosas.
A emoção de sentir ! só assim, se conhece verdadeiramente.

E por ser referência a escritor das Ilhas Açoreanas, o sinal de que simples... não é "simplex". E tão só, dificuldade !
No caso que mostra, sobre um projecto que diz "nunca ser tarde"... pois é, pelo andar da "carruagem" poderá correr o risco de se fazer tarde.
Façamos esperança que os envolvidos aligeirizem o processo.



De felismundo a 25 de Abril de 2008 às 14:58
Luis Manuel, amigo e companheiro!
Para além de te ter cá por casa, o que já por si é uma imensa alegria, a justeza dos teus comentários, constituem uma valorização para o que aqui deixei, nunca a mão te falhe.


De emiele a 29 de Abril de 2008 às 09:37
Ainda bem que conseguiste modificar, e ficou muito bem!
O «nosso» Luís Manuel é sempre uma mais valia tê-lo a comentar um blog nosso. Escreve muito bem, e tem um dom para sintetizar o mais importante que me delicia sempre.
Fico bem satisfeita de o encontra por aqui.


De felismundo a 29 de Abril de 2008 às 13:10
Devo dizer-te que me alegrou bastante o facto de te referires ao Luis Manuel, como o "nosso Luis Manuel"!
Tudo certo tudo verdadeiro, o Luis, é mesmo um dos nossos!!!
Tem todas essas virtudes que afirmas, juntamente com um bom coração, como não podia deixar de ser.


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