Terça-feira, 20 de Maio de 2008

O CENTRO DO MUNDO

 

O texto que hoje  trago, é da autoria de Orlando Vitorino, e foi publicado no Suplemento Literário do Jornal da Madeira, em 1971.

 

O CENTRO DO MUNDO

 

 

 

FOTO DO TEATRO DE GIZ - VULCÃO DOS CAPELINHOS

 

"O Agostinho da SIlva é um entusiasta- não sei se hei-de dizer <um devoto> - do Espírito Santo. Com o seu entusiasmo contangiante arrasta outros na sua devoção, outros que escrevem livros e artigos, dão aulas, fazem conferências. Mas o Agostinho da Silva, que tem corrido as sete partidas do mundo, nunca foi aos Açores, lá onde existe o culto que venera.

Ora o Quinto Império - que, atrás de Pessoa, Agostinho também destina a Portugal - será o Império do Espírito ( seus vates não nos dizem se Santo, ou separado, se só Espírito), e Império do Espírito destinado a Portugal só poderá ser o da filosofia portuguesa, como lhes observou o Álvaro Ribeiro. Agostinho, porém, nada quer com a filosofia, portuguesa ou outra.

 

Que o Império do Mundo esteja destinado a Portugal é coisa que também nos Açores  se pode ver, e não no culto do Espírito Santo. É o caso...

 

O caso, foi este:

Andava eu pelas ilhas com uma companhia de teatro. De S. Miguel, seguíamos para o Faial, passando pela Terceira aonde regressaríamos vindos da Horta. Toda a tarde se demorou o navio no porto de Angra, donde partiria à noite. No momento de levantar ferro, foi como uma iluminação. Ia largar o último escaler, e eu desço a escada que ia já ser erguida, grito aos meus surpreendidos companheiros que fico a esperá-los em Angra e salto para o escaler. Como um ritual de purificação.uma onda mais alta cobre-me todo, limpa-me. Era já noite cerrada. Pelas ruas desertas foi-me difícil encontrar casa onde dormisse.

Na manhã seguinte passeie na cidade, admirei monumentos e gentes, almocei cracas, aluguei um carro sem condutor, fiz a minha sesta e à tarde pus-me a rodar pelas estradas, sem mapa, ao acaso, isto é, ao que caísse. O que caíu foi um caminho para o interior da ilha. Vão rereando as casa, desaparecendo as plantações. A estrada corta uma linha de montes, abrindo uma espécie de desfiladeiro, e eu vejo-me num largo planalto rodeado ao longe por um círculo de montanhas. Não há viv'alma, nem homens, nem casas, nem árvores. Montículos, como seios cortados de mulher, ondeavam o chão, cobertos de musgo verde. No silêncio perfeito e puro, sombras escuras cruzavam a luz que amortecia, touros solitários, negros, pesados, indiferentes, mitológicos. Perdera-se o tempo e, no instante que o absorveu, surpreendo-me a dizer: estou no centro do mundo.

Ainda suspenso da sensação de percorrer o centro do mundo, a linha de montanhas abre-se de súbito e avisto, deitadas a meus pés, as longas pistas de um imenso aeroporto, aeronaves de guerra pousadas com pássaros gigantes, de cores sinistra e sombrias. O que tenho perante meus olhos é a máquina de guerra do povo que detém hoje o império do mundo, não o Império do Espírito mas o Império da Mecânica criada pela filosofia moderna. E já interior, reflexiva, minha voz diz para comigo: quem tiver os Açores, tem o Império do Mundo.

Os meus cómicos voltaram dois dias depois, e eu desafiei quatro ou cinco para um passeio, entre eles a mais jovem das nossas actrizes, que tinha olhos de lua em quarto crescente e voz de soprano lírico. A tarde morria. Conduzo o carro para o interior e todos conversamos tumultuosamente dos espectáculos dados no Faial: O carro sobe a estrada, atravessa o desfiladeiro e caímos, de súbito, no silêncio perfeito e puro. As sombras mitológicas perpassam. A luz amortece. E lá, no mesmo instante ou ponto, a linda voz do nosso soprano lírico solta-se num claro mas atemorizado mormúrio: parece que estamos no centro do mundo.

Não restavam dúvidas. Quem tiver a ilha, terá o Império, quinto ou outro, do Espírito Santo ou da mecânica.

 

Orlando Vitorino

 

 

Foto de António Gama


publicado por felismundo às 08:00
link do post | comentar | favorito
2 comentários:
De emiele a 20 de Maio de 2008 às 15:30
E vivam os Açores!!!!!
Dá gosto ver o prazer que sentes em viver aí. Até nos fazes inveja!


De felismundo a 20 de Maio de 2008 às 16:51
Tens razão, aqui vive-se uma paz e um sossego, bem diferentes que aí, pela península.


Comentar post

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Outubro 2013

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5

6
7
8
9
10
11
12

13
14
15
16
17
18
19

21
22
23
24
25
26

27
28
29
30
31


.posts recentes

. AOS DOMINGOS POESIA

. ...

. POESIA POPULAR ALENTEJANA

. LEMBRANDO A INFÂNCIA

. BENFICA 2 - PORTO 2

. ...

. A poesia de Fernando Pess...

. TENTEMOS UM RECOMEÇO, PEL...

. É BOM OUVIRMOS OS "MAIS V...

. MUDANÇAS

.arquivos

. Outubro 2013

. Junho 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Novembro 2012

. Setembro 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Janeiro 2006

. Dezembro 2005

. Novembro 2005

. Outubro 2005

. Setembro 2005

. Agosto 2005

. Julho 2005

.tags

. todas as tags

.últ. comentários

Meu caro Armando Facadinhas, só hoje dei pelo teu ...
Meu caro Armando, é com todo o gosto que te vejo p...
boa tarde é armando facadinhas câmara municipal d...
Salvé o retorno à blogosfera. As nossas ausências ...
Tens toda a razão, o esquecimento é uma coisa cont...
Boa recordação.É uma pena estes nomes irem caindo ...
Parecendo que não, duplicou o drama!!!
Oportuno, realmente.Ainda era o marido a trabalhar...
Olá.Um belo poema de António Ramos Rosa.A 1ª vez q...
Na verdade o abandono dos blogs também me tocam......

.links

blogs SAPO

.subscrever feeds