Sexta-feira, 16 de Janeiro de 2009

CESTAS DE POESIA

Neste preciso momento, em que os canhões e as bombas, não deixam de matar GENTE, não podia agir de outra forma.

A minha inteira solidariedade com os que sofrem!




Escutar o poema (clique aqui e aguarde)

CARTA A MEUS FILHOS SOBRE OS FUZILAMENTOS DE GOYA

Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso.
É possível, porque tudo é possível, que ele seja
aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo,
onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém
de nada haver que não seja simples e natural.
Um mundo em que tudo seja permitido,
conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer,
o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós.
E é possível que não seja isto, nem seja sequer isto
o que vos interesse para viver. Tudo é possível,
ainda quando lutemos, como devemos lutar,
por quanto nos pareça a liberdade e a justiça,
ou mais que qualquer delas uma fiel
dedicação à honra de estar vivo.
Um dia sabereis que mais que a humanidade
não tem conta o número dos que pensaram assim,
amaram o seu semelhante no que ele tinha de único,
de insólito, de livre, de diferente,
e foram sacrificados, torturados, espancados,
e entregues hipocritamente à secular justiça,
para que os liquidasse «com suma piedade e sem efusão de sangue.»
Por serem fiéis a um deus, a um pensamento,
a uma pátria, uma esperança, ou muito apenas
à fome irrespondível que lhes roía as entranhas,
foram estripados, esfolados, queimados, gaseados,
e os seus corpos amontoados tão anonimamente quanto haviam vivido,
ou as suas cinzas dispersas para que delas não restasse memória.
Às vezes, por serem de uma raça, outras
por serem de urna classe, expiaram todos
os erros que não tinham cometido ou não tinham consciência
de haver cometido. Mas também aconteceu
e acontece que não foram mortos.
Houve sempre infinitas maneiras de prevalecer,
aniquilando mansamente, delicadamente,
por ínvios caminhos quais se diz que são ínvios os de Deus.
Estes fuzilamentos, este heroísmo, este horror,
foi uma coisa, entre mil, acontecida em Espanha
há mais de um século e que por violenta e injusta
ofendeu o coração de um pintor chamado Goya,
que tinha um coração muito grande, cheio de fúria
e de amor. Mas isto nada é, meus filhos.
Apenas um episódio, um episódio breve,
nesta cadeia de que sois um elo (ou não sereis)
de ferro e de suor e sangue e algum sémen
a caminho do mundo que vos sonho.
Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém
vale mais que uma vida ou a alegria de té-la.
É isto o que mais importa - essa alegria.
Acreditai que a dignidade em que hão-de falar-vos tanto
não é senão essa alegria que vem
de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez alguém
está menos vivo ou sofre ou morre
para que um só de vós resista um pouco mais
à morte que é de todos e virá.
Que tudo isto sabereis serenamente,
sem culpas a ninguém, sem terror, sem ambição,
e sobretudo sem desapego ou indiferença,
ardentemente espero. Tanto sangue,
tanta dor, tanta angústia, um dia
- mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga -
não hão-de ser em vão. Confesso que
muitas vezes, pensando no horror de tantos séculos
de opressão e crueldade, hesito por momentos
e uma amargura me submerge inconsolável.
Serão ou não em vão? Mas, mesmo que o não sejam,
quem ressuscita esses milhões, quem restitui
não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado?
Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes
aquele instante que não viveram, aquele objecto
que não fruíram, aquele gesto
de amor, que fariam «amanhã».
E, por isso, o mesmo mundo que criemos
nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa
que não é só nossa, que nos é cedida
para a guardarmos respeitosamente
em memória do sangue que nos corre nas veias,
da nossa carne que foi outra, do amor que
outros não amaram porque lho roubaram.

Jorge de Sena

Dito por Mário Viegas


publicado por felismundo às 07:00
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4 comentários:
De Emiéle a 16 de Janeiro de 2009 às 07:34
Quando no outro dia falei no Museu do Prado, um dos quadros que mais recordo é exactamente « Os fuzilamentos de 3 de Maio»
Vi esse Museu a primeira vez com o meu pai, já há muitos anos, e falámos imenso sobre o quadro - até trouxemos uma pequena reprodução.
O poema é um abanão, tão como o quadro.
Já nem sei se famos para os nossos filhos ou para os nossos netos...



De felismundo a 16 de Janeiro de 2009 às 16:11
Um dos melhores exercícios que me poderiam arranjar, já o pratico, este da procura, de coisas que me agradem e que agradem a outrém. Este poema, poderia ter sido feito para a época que, desgraçadamente, vivemos, pois a sua adequação é muito intensa, só o resolvi publicar com o quadro de Goya, porque foi mesmo assim.
E eu que já estive em Madrid uma série de vezes e que ainda não visitei o Prado? Imperdoável...


De inframodal a 16 de Janeiro de 2009 às 13:23
É, sem dúvida, Jorge de Sena! Muito forte, talvez demais... Nos dias que correm em que a vida é mera moeda de troca, não me importava de ter o condão de trocar a vida de uns pela de outros. E sim, falo de Israel, mas não só.
Qualquer dia ainda nos acusam de anti-semitismo!


De felismundo a 16 de Janeiro de 2009 às 16:16
Em determinados contextos, e este é um deles, o discernimento, a ousadia e o não fazer vítimas, por mais legítimas que elas sejam, é o mais importante.
O que mais me revolta, até já nem é quem tem ou não razão, porque, para estes actos a razão perde-se automaticamente, o que me revolta, como dizia é a incomensurável, desproporção de forças no teatro de guerra e a culpa de quem as sustenta e garante, sem, sequer, dar a cara.


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