Sexta-feira, 23 de Janeiro de 2009

CESTAS DE POESIA

A roupa envolve-nos

 
A roupa envolve-nos
a paragem do mar cresce contigo
a língua e o sentido tudo anda
tão ocupado tão cansado e destruído
que a roupa em
torno morre como um foco de ruído

O movimento cerca esta mudez
o mar desidratado é o abismo
onde revives
Viste os vales instáveis do mar
mas para que é perguntar senão que se fez de ti
O fogo sob as vozes que não ouves
A língua vive ainda?

Inscrevo na memória tumefacta
mais uma imagem
Esses corpos nascem
O que posso dizer para cobri-los?
Ouves? Está comigo
a mortalidade da tua vida

Como falar contigo? Mas o som
produzido era tanto
que as cordas se formavam com a sua saída
retomavam a forma destruída
enquanto
tudo o que te dizia dividia
um som tempestuoso

Na ocasião da queda
desses algum
olha as áreas correspondentes no mar
volta transforma-se
é um sinal de
contradição 
e sob a chuva contínua de relâmpagos revive

Porém o som inibe-te prossegues
sem segurança o canto a turva cítara
vence-te não o canto repetido
Essas cordas do peito já distensas

submetem-se ao silêncio poderias
escolhê-las porém sempre repetes
os nomes desses corpos a mudez
intimida-te assim a poesia

nasce com o rumor dos próprios corpos
com o bater dos nomes entre os ombros
tão dóceis mar de músculos

mudos
o coração do corpo
repetindo os nomes turvos

Como é possível termos esquecido a linguagem?
Comparámos os corpos Se os descrevo
agora que deixámos de falar
esqueço a igualdade e nela cessa
a possibilidade de falar

É um erro a cidade alguma vez a
cantaste?
Mas já não é possível a verdade é que
definitivamente nela morres
Por isso escolherás o teu estilo
de novo por palavras errarás

Na praia exterminada não pudemos
cantar a liberdade
sobre o teu corpo correm turvas asas
de entre as pedras
levantas a cabeça enquanto cais

Depois a roupa gera e espalha a escuridão
cada corpo isolado se transforma
sob as asas que
o cobrem

Desencontramo-nos
a terra recomeça a deter-te
preciso de dizer
esse teu nome
Mas não ouças a minha fala transformada



Gastão Cruz
poesia 1961-1981
com três desenhos de Manuel Baptista
o oiro do dia

Gastão Cruz

Poeta e crítico literário, Gastão Cruz nasceu em Faro no ano de 1941. Licenciado em Filologia Germânica pela Universidade de Lisboa, foi professor do ensino secundário e leitor de português no King’s College, em Londres.
Como poeta, começou por se destacar com a sua participação na revista Poesia 61, no início da década de 60, sendo autor de uma obra vasta e em contínuo crescimento.
Colaborou com vários jornais e revistas como crítico literário, tendo traduzido autores como William Blake, Strindberg e Shakespeare. Foi ainda um dos fundadores do grupo Teatro Hoje, onde encenou várias peças.
A obra de Gastão Cruz foi distinguida com inúmeros prémios, entre os quais se contam o Prémio PEN Clube de Poesia, em 1985, e o Pémio D. Dinis, atribuído pela Fundação Casa de Mateus. Em 2002, o seu livro de poesia Rua de Portugal foi distinguido com o Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores, e em 2005, com Repercussão, ganhou o Grande Prémio de Literatura dst.


publicado por felismundo às 07:00
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4 comentários:
De Emiéle a 23 de Janeiro de 2009 às 09:00
Boa lembrança a deste poeta, nem sempre muito lembrado.
Aquela geração da Faculdade de Letras deu de facto vários e bons poetas. Lembro a «Poesia 91» que nasceu aí mesmo em Faro com Casimiro de Brito, Luiza Neto Jorge, Gastão Cruz, Fiama Hasse Pais Brandão e Maria Teresa Horta. Tão diferentes!!


De felismundo a 24 de Janeiro de 2009 às 15:33
Como dizes, todos tão diferentes e todos tão BONS!!!
Quanto ao Gastão Cruz, para mim um dos máximos expoentes e talvez o mais esquecido...


De inframodal a 23 de Janeiro de 2009 às 13:02
A incomunicabilidade e a solidão que carreia neste sem-sentido que é a vida.
Uma vez mais a "cidade" no seu movimento cismático; ela não é uma entidade, mas sim uma condição e há quem dela dependa e nunca se evada...

Essa leitura é minha, quanto ao poeta é apenas mais um dos vultos da nossa, por vezes, tão amesquinhada poesia. Excelente!


De felismundo a 24 de Janeiro de 2009 às 15:37
Gostei da tua leitura!
De repente é isso, um turbilhão. Há que saber lodar com os factos.
Quanto ao poeta, imenso....


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