Sexta-feira, 8 de Maio de 2009

CESTAS DE POESIA

 

José Régio

 

 

Cântico Negro

 

"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...

Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
- Sei que não vou por aí!

José Régio, in 'Poemas de Deus e do Diabo'


publicado por felismundo às 07:00
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3 comentários:
De Emiéle a 8 de Maio de 2009 às 08:12
Este é o poema maior da rebelião.
É muito o poema da adolescência no seu melhor.

Já o publiquei no Pópulo (se calhar mais de uma vez) ainda antes de ter uma rubrica mais de poesia.

Mas sabe sempre bem lê-lo.


De felismundo a 8 de Maio de 2009 às 11:45
Para além dos pontos que referes e que subscrevo na integra, esta escolha teve muito a ver com o autor e com toda a sua ligação ao Alentejo, foi professor no Liceu de Portalegre, tendo contribuído, de forma decisiva, para o engrandecimento cultural, daquela terra transtagana .


De inframodal a 9 de Maio de 2009 às 01:46
Conhecida por demais esta bela peça para que dela se extraia qualquer juízo original, contudo, e pegando na Emiéle há de facto uma rebeldia adolescente, um desapego, um desalinho, talvez que em Régio, tudo isso e um pouco mais, numa luta insana contra o que no mundo nos deixa confusos e move à inacção (passe a aporia).
Para todos os efeitos, genial!!!


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