Sexta-feira, 10 de Julho de 2009

CESTAS DE POESIA

 Aproximam-se eleições.

Livres, dizem os políticos, se bem que, para mim, que nasci cresci e me fiz homem, num outro tempo, a "liberdade" de que estes falam, não é a mesma pela qual eu sonhei e lutei

 Daí que me tenha recordado do Manuel Alegre, combativo e actuante, desse tempo e, por isso este poema de hoje, para que, aqueles que o lerem, se não esqueçam do que foi o nosso passado recente.

 

 

S (ésse) - 18 de Janeiro de 1974

 

Direi de meu tempo que havia um S

havia uma sombra e um silêncio

havia um S de sigla e de suspeita

com suas seitas e seus sicários.

 

Não sei se signo não sei se sina

não sei se simplesmente sujo.

Ou só servil. Ou só sevícia.

 

Havia um S de Saturno

havia um susto

havia um S de soturno

sobre um S de sol.

 

De meu tempo direi

que havia um S

de sepulcro.

 

Sentinela. Sentinelas.

 

Ou talvez selva. Talvez serpente.

S de sebo e de sebeta: seco seco.

 

E também senão. E também senil.

 

Direi de meu tempo

que havia um S

sem sentido.

 

E também Setembro. E também solstício.

Saga e safra.

Ou talvez semente. Ou talvez segredo.

 

Havia um S de sal e sílex

havia um silvo

Havia um sílaba ciciada.

 

E também o sonho: entre suar e ser.

(Como um soluço como um soluço.)

 

De meu tempo direi

que havia um S

de sol e som.

Havia Setembro e um assobio

Contra um S de sombra e de silêncio.

 

 Manuel Alegre


publicado por felismundo às 07:00
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2 comentários:
De Emiéle a 10 de Julho de 2009 às 08:31
Sabes, meu amigo, que se der este poema a ler ao meu filho ou aos seus amigos da sua idade, nascidos pós-Abril, não entendem de todo o que é ESTE S. O tal S que era a fivela da farda da Mocidade Portuguesa.
Claro que eles diziam que era uma coincidência Salazar escrever-se com S, aquilo queria dizer «Servir» ou lá o que era...

Mas o poema, cheiinho de alegorias, bate-nos forte.


De felismundo a 12 de Julho de 2009 às 16:22
Sim, era a fivela desse malfadado cinto. Até à cintura, ele tinha acesso!
Quanto ao poema, achei-o divertido até porque, para além de lembrar e permitir que se lembre ou, noutros casos, se revele o porquê das coisas, permite-nos entrar neste período de eleições em que as lutas, as traições e as pseudo amizades/desafactos, se vão tornando mais evidentes e em que o ataque da direita, está aí, na ordem do dia.


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