Sexta-feira, 24 de Julho de 2009

CESTAS DE POESIA


 

 



Lisboa
1855 - 1886

 

CESÁRIO VERDE

Contrariedades

 

Eu hoje estou cruel, frenético, exigente;
Nem posso tolerar os livros mais bizarros.
Incrível! Já fumei três maços de cigarros
Consecutivamente.

Dói-me a cabeça. Abafo uns desesperos mudos:
Tanta depravação nos usos, nos costumes!
Amo, insensatamente, os ácidos, os gumes
E os ângulos agudos.

Sentei-me à secretária. Ali defronte mora
Uma infeliz, sem peito, os dois pulmões doentes;
Sofre de faltas de ar, morreram-lhe os parentes
E engoma para fora.

Pobre esqueleto branco entre as nevadas roupas!
Tão lívida! O doutor deixou-a. Mortifica.
Lidando sempre! E deve a conta na botica!
Mal ganha para sopas...

O obstáculo estimula, torna-nos perversos;
Agora sinto-me eu cheio de raivas frias,
Por causa dum jornal me rejeitar, há dias,
Um folhetim de versos.

Que mau humor! Rasguei uma epopéia morta
No fundo da gaveta. O que produz o estudo?
Mais duma redação, das que elogiam tudo,
Me tem fechado a porta.

A crítica segundo o método de Taine
Ignoram-na. Juntei numa fogueira imensa
Muitíssimos papéis inéditos. A imprensa
Vale um desdém solene.

Com raras exceções merece-me o epigrama.
Deu meia-noite; e em paz pela calçada abaixo,
Soluça um sol-e-dó. Chuvisca. O populacho
Diverte-se na lama.

Eu nunca dediquei poemas às fortunas,
Mas sim, por deferência, a amigos ou a artistas.
Independente! Só por isso os jornalistas
Me negam as colunas.

Receiam que o assinante ingênuo os abandone,
Se forem publicar tais coisas, tais autores.
Arte? Não lhes convêm, visto que os seus leitores
Deliram por Zaccone.

Um prosador qualquer desfruta fama honrosa,
Obtém dinheiro, arranja a sua coterie;
E a mim, não há questão que mais me contrarie
Do que escrever em prosa.

A adulação repugna aos sentimentos finos;
Eu raramente falo aos nossos literatos,
E apuro-me em lançar originais e exatos,
Os meus alexandrinos...

E a tísica? Fechada, e com o ferro aceso!
Ignora que a asfixia a combustão das brasas,
Não foge do estendal que lhe umedece as casas,
E fina-se ao desprezo!

Mantém-se a chá e pão! Antes entrar na cova.
Esvai-se; e todavia, à tarde, fracamente,
Oiço-a cantarolar uma canção plangente
Duma opereta nova!

Perfeitamente. Vou findar sem azedume.
Quem sabe se depois, eu rico e noutros climas,
Conseguirei reler essas antigas rimas,
Impressas em volume?

Nas letras eu conheço um campo de manobras;
Emprega-se a réclame, a intriga, o anúncio, a blague,
E esta poesia pede um editor que pague
Todas as minhas obras

E estou melhor; passou-me a cólera. E a vizinha?
A pobre engomadeira ir-se-á deitar sem ceia?
Vejo-lhe luz no quarto. Inda trabalha. É feia...
Que mundo! Coitadinha!

Cesário Verde, in 'O Livro de Cesário Verde'


publicado por felismundo às 07:00
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4 comentários:
De Emiéle a 24 de Julho de 2009 às 20:58
Não tinha reparado que tinha estado vários dias sem visitar a «Sesta» mas hoje encontro vários posts que não tinha visto portanto com as minhas ocupações (esta semana foi complicada) desleixei esta visita.
:(

Mas mesmo tarde dá para dizer que sabe bem voltar a ler o Cesário. É engraçado que ontem citei no Pópulo a poesia de António Botto, um tanto mais novo mas que não chegou a viver ao mesmo tempo que Cesário por este ter morrido tão cedo. Mas são dois poetas "urbanos".
Este poema de Cesário é impressionantemente moderno!


De felismundo a 25 de Julho de 2009 às 10:48
Eu, já tinha reparado, mas fiquei à espera.
Tenho uma grande admiração pelo Cesário.
Um homem como ele, escreve uma mão cheia de poemas, dos quais nasce o "Livro do Cesário Verde" e depois é isto, está lá tudo e de todos os tempos, espantoso!


De Maria a 25 de Julho de 2009 às 15:40
Magnífico Cesário neste ("desabafo", atrevimento meu chamá-lo assim) Poema - "Contrariedades" - é de uma intensidade e intemporalidade que causa arrepios!!!


De felismundo a 27 de Julho de 2009 às 10:12
Tens razão, Maria!
O Cesário é, realmente, magnífico!
Quanto à "contrariedades" que aqui exprimiu, não são nem mais, nem menos, que as nós, hoje, sentimos, daí a intemporalidade.


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