Sábado, 8 de Agosto de 2009

NO SÁBADO, PINTURA!

 

 

MÁRIO ELOY


Auto-Retrato

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Autor: Mário Eloy Pereira (1900 - 1951)
Século: XX
Ano: c. 1936-39
Tipo: óleo sobre tela
Dimensões: 35 x 27 cm
Local: Fundação de Serralves (Porto)

 

por Helena Vasconcelos

MÁRIO ELOY (1900 – 1951 Mário Eloy de Jesus Pereira), justamente considerado como um dos artistas portugueses mais marcantes do século XX, nasceu a 15 de Março de 1900, em Algés, Lisboa. Tanto o pai como o avô eram ourives de profissão e dedicavam-se com paixão ao Teatro amador. Desde muito jovem, Mário demonstrou ser irreverente e inquieto, arvorando uma atitude de contestação precoce. Em 1913, abandonou o Liceu e matriculou-se na Escola de Belas-Artes de Lisboa, onde apenas permaneceu dois anos, insatisfeito com o ensino tradicional que aí se ministrava.

 

A FUGA

http://www.camjap.gulbenkian.org/Gallery/%7B28c18bf3-732e-40da-9c19-37b019c44f7e%7D/f3a303b5-fdcf-4075-b088-c4a57629b411.jpg

 

Colecção Particular

 

Entre 1915 e 1919, Mário levou uma vida boémia. Frequentou assiduamente os cafés lisboetas e, nas mesas do “Martinho” ou nos de “A Brasileira”, aproveitava para desenhar os seus companheiros de tertúlia, como o pintor Alberto Cardoso e o dramaturgo Alfredo Cortês. Mais tarde, Diogo de Macedo recordou-o com vinte anos, referindo os seus “hábitos de janotice” e a sua preocupação com a aparência. Nos finais de 1918, ou princípios de 1919, Eloy, rebelando-se contra a imposição familiar de um emprego como bancário (o irmão, Raul, fora indigitado para “cuidar dos oiros” da Casa Eloy de Jesus) fugiu para Madrid onde, no Museu do Prado, encontrou um universo artístico que o desassossegou ao ponto de decidir o seu futuro: ser artista. Foi-lhe difícil acatar o pedido de regresso a Portugal dos pais. Augusta Pina, cenógrafo amigo da família, convenceu-o a voltar, prometendo-lhe trabalho no atelier do Teatro D. Maria II, em Lisboa, onde se exercitou nas técnicas do desenho. O contacto com o meio teatral, que lhe era familiar e que possuía uma enorme vitalidade criativa, convinha às suas ambições artísticas, (chegou a representar com Amélia Rey Colaço e Robles Monteiro na peça “A Ribeirinha” que estreou no Politeama em 1923) e demonstrou ser importante uma vez que lhe proporcionou uma boa formação. As suas primeiras experiências como pintor foram retratos de amigos, como a actriz Maria Helena Andrade, por quem se apaixonou tão perdidamente que chegou a tentar o suicídio. 

 

O Poeta e Anjo

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Autor: Mário Eloy Pereira (1900 - 1951)
Século: XX
Ano: c. 1938
Tipo: óleo sobre tela
Dimensões: 80 x 100 cm
Local: Museu do Chiado (Lisboa)

Em 1924 expôs pela primeira vez, juntamente com Alberto Cardoso, no Salão de Ilustração Portuguesa do jornal O Século e, em 1925, participou no 1º Salão de Outono da Sociedade Nacional das Belas com obras onde eram ainda visíveis a influência de Columbano, de Zuloaga e do seu mentor Eduardo Viana. Nessa altura entrou em contacto com António Ferro, o polémico Ministro da Cultura de Salazar que, em 1925, criou o “Teatro Novo”, no salão de chá do novo cinema Tivoli, tendo encomendado o pano a Mário Eloy. A decoração foi entregue a Pacheko e os cenários a Leitão de Barros. No mesmo ano, Eloy pintou um retrato de Ferro e fez desenhos de amigos e pessoas importantes e influentes, no panorama cultural português. O controverso retrato do bailarino Francis (1925) foi apresentado no I Salão dos Independentes de 1930, onde estavam incluídos os artistas da aventura modernista portuguesa e cujo catálogo tinha capa desenhada por Almada Negreiros.

 

Bailarico

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Autor: Mário Eloy Pereira (1900 - 1951)
Século: XX
Ano: 1936
Tipo: óleo sobre tela
Dimensões: 80 x 100 cm
Local: Museu do Chiado (Lisboa)

Em 1925, Eloy abandonou Portugal e partiu para Paris, a cidade trepidante onde se cruzavam todos os artistas e todas as modas e movimentos. Aí, sobreviveu graças aos cheques enviados pelo irmão e à venda de retratos, tendo sido apadrinhado pelos exilados políticos que haviam saído de Portugal com a implantação da República. Acolhia-se geralmente em ateliers, como o do seu amigo Alberto Cardoso, na Cité Falguière. Em 1927 expôs em conjunto com a artista russa Hélène Puciatieka e com o austríaco Erwin Singer na galeria Au Sacre du Printemps. A exposição foi repetida na Chez Fast, a título individual. Os críticos falaram de uma “personalidade brutalmente expressa, audaciosa, até mesmo temerária mas pensada e sentida, simultaneamente moderna e clássica, tradicionalista” (André Warnod, In “Comoedia, 5-5-1927). Em Paris, Eloy teve contacto com o Cubismo de Braque e Picasso, foi comparado a Van Dongen e profundamente influenciado pela corrente Expressionista mas não chegou a ser tocado pelo Surrealismo que, tendo começado por ser um movimento literário, estava a contaminar rapidamente outras manifestações artísticas como as Artes Plásticas e o Cinema.

 

Lissabon

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Autor: Mário Eloy Pereira (1900 - 1951)
Século: XX
Ano: 1930-31
Tipo: óleo sobre tela
Dimensões: 60,5 x 52,5 cm
Local: Centro de Arte Moderna (Lisboa)

 

 

No final de 1927, Mário deixou Paris, rumo a Berlim. Nesta cidade – onde foi escolhido para a Sociedade de Artistas Plásticos, tendo-se tornado o único estrangeiro inscrito – conheceu Theodora Elfriede Laura Severin, (Dora), com quem casou no dia 31 de Janeiro de 1929, poucos dias depois do nascimento do filho, Mário António Horslt Eloy Jesus Pereira. A família instalou-se na Kurfurstendam Strasse, nº 141, enquanto o pintor trabalhava num atelier na Shuter Strasse, 25, mantendo a família com grandes dificuldades económicas que o levavam, por vezes, a “enfileirar nas bichas de figurantes anónimos do cinema”, para “ganhar o pão para a boca” (segundo Diogo de Macedo).

 

 

Algumas das obras que produziu nesse tempo foram enviadas para Lisboa e expostas no Sindicato dos Profissionais de Imprensa, em 1928. Raoul Leal-Henoch, no nº16 da Presença, escreveu que “os quadros (de Mário Eloy) parecem ter sido forjados nos infernos, (são) alucinações sinistras de um Além feérico, orquestrado por Satã” e Jaime Brasil fez notar que a utilização de cores sombrias, “... é tão exagerada que o corpo nu de “Mulher Grávida” (1928) é verde de podridão com manchas de gangrena”(em “O Século” , 10-12-1928). Do seu exílio berlinense, Eloy continuou a participar na vida artística portuguesa: escreveu a Jorge Segurado, propondo-lhe o projecto de um “Racional Grupo das Artes Vivas e Estéticas” – que se tornou o embrião para a formação do S.N.P.N., o Secretariado Nacional de Propaganda Nacional de António Ferro – e insurgiu-se contra a recusa de aquisição, por parte de Adriano Sousa Lopes, Director do Museu de Arte Contemporânea (actual Museu do Chiado) de um quadro de Barata Feyo. Em 1930 expôs oito obras, quatro pinturas e quatro desenhos no I Salão dos Independentes em cujo catálogo professava o seu desejo de “ter na cabeça pincéis em vez de cabelos”, o que seria a situação ideal para “não desvirtuar a intenção no acto de pintar”, na “procura da síntese na forma”. O pintor transmitia assim a sua ansiedade quanto ao desejo de um imediatismo e de uma pureza do gesto, no acto criador.

Em 1931, Jorge Segurado, seu companheiro de Liceu, instalou-se em Berlim e os dois amigos correram juntos os cafés e os famosos “cabarets” berlinenses onde assistiram, também, aos primeiros sinais da ascensão nazi. Entretanto, Mário colaborou na revista Der Querschnitt que contava, nas suas fileiras, com Picasso, Jean Cocteau e Grosz.  

 


Retrato de Matilde Pereira (mãe do pintor)

eloy_pereira1g.jpg
Autor: Mário Eloy Pereira (1900 - 1951)
Século: XX
Ano: 1923
Tipo: óleo sobre tela
Dimensões: 56 x 44 cm
Local: Colecção particular (Lisboa)

 

 

Sempre inquieto e insatisfeito, Eloy viajou entre Berlim e Lisboa várias vezes e, em 1933 regressou a Portugal de vez. Retomou os seus hábitos lisboetas e reatou uma antiga relação com a actriz Beatriz Costa. Dora (que nunca se adaptou a Portugal) e o filho continuaram a viver na Alemanha, cada vez mais abalada por conflitos sociais, políticos e económicos.

 

 

Durante os anos trinta, Mário Eloy atingiu o seu apogeu como artista. Experimentou formas e cores, desenvolveu novas técnicas e revelou uma inclinação para temas marcados pela alegoria(“Amor” – 1935, “A Fuga” - 1938-39  e “O Poeta” - 1938) Retratou personalidades do meio artístico português como Abel Manta, António Pedro, Diogo de Macedo e João Gaspar Simões, pintou bailarinas russas e desenhou cenas do quotidiano, bailes populares, o casario de Lisboa e bordéis, lugares de eleição de artistas que aí se sentiam à vontade, longe dos constrangimentos familiares e sociais.

 

 

Data de 1934 a sua única obra abstracta conhecida, um óleo sobre tela intitulado “Komposição” (Natureza-Morta).  

 

 

A partir de 1938 e agravada em 1939, a temática de Eloy evoluiu para um inclinação ferozmente crítica, catastrófica e decadente, a prenunciar tempos sombrios, marcados pela doença de Huntington (ou Coreia), que lhe foi diagnosticada em 1940. O deflagrar da Guerra na Europa foi outro factor de grande instabilidade psicológica. Em 1939 Dora e o filho tiveram de fugir para a Checoslováquia e depois para a Holanda onde se acolheram em casa da mãe de Dora, após a invasão do território checo pelas tropas alemãs.

 

 

A esperança pareceu, então, abandonar Eloy. Pintou violinistas e anjos como Chagall (que passou por Lisboa tal como Léger, Lipchitz, Zadkine e Kisling entre 1940 e 1941) e mostrou um lado obscuro de Lisboa, com os seus pobres a pedir e burgueses gordos e ridículos, como as imagens caricaturais de Grosz. Abandonou o tema de casais jovens e romanticamente erotizados para os desenhar velhos, pesados, grotescos e assustadores. Nem mesmo nos bordéis, parecia encontrar a antiga alegria devassa. Os últimos desenhos são dramáticos, cobertos de imagens de monstros, facas, suicidas, mãos e pés dependurados, corpos desmembrados. As suas obras acompanham, de uma forma tormentosa, a decadência e desregramento do mundo e da sua mente. Os seus Cristos crucificados, que lembram a série “ Crucificação, d’après Grünewald”, feitos por Picasso, em 1932, são antevisões dos horrores dos campos de concentração.  

 

 

Até ao internamento no Hospital do Telhal, em 1942, os sinais de uma degradação gradual são bem visíveis. Eloy pintava pouco e quando o fazia era com a intenção expressa de ganhar dinheiro. Sempre carente de fundos, recorreu ao desenho quando não tinha dinheiro para telas, pincéis e tintas mas continuou sempre a afirmar, orgulhosamente, a sua condição de artista. Falhou à justa os grandes trabalhos em que os grupos mais intervenientes das artes lisboetas se empenharam: as decorações de “A Brasileira” do Chiado e do cabaré de luxo “Bristol Club”, em que foi dada toda a liberdade aos artistas para criarem um lugar de intimidade e voluptuosidade. Zangou-se com o seu irmão Raul (“que sorte teve Van Gogh por ter tido um irmão que o compreendia”, afirmou) e habitava em parte incerta, umas vezes em casa de família, outras em ateliers de amigos, até mesmo num quarto minúsculo do Teatro Nacional. Morreu a 5 de Setembro de 1951, depois de uma agonia em que, gradualmente, todas as faculdades o foram abandonando, mal se apercebendo de que, no ano anterior, duas das suas obras, “Auto-Retrato” e “Jeune Homme” tinham sido escolhidas para a Bienal de Veneza (no ano da sua morte foi escolhido para a Bienal de S. Paulo). Não chegou a conhecer a fama que procurava. O filho, também pintor, morreu num incêndio, em 1975, já doente com Huntington, tendo-se perdido quase toda a sua obra.

Mário Eloy foi um autodidacta como Amadeo, Cristiano Cruz, Almada, Viana, Botelho e Bernardo Marques. Controverso, diletante, “anti-mainstream”, contribuiu para um “segundo Modernismo”, em Portugal. Nele existiu uma tendência para passar ao lado, embora com uma proximidade muitas vezes tangencial, dos grandes acontecimentos, dos movimentos, das iniciativas espectaculares. Não possuiu a exuberância de Almada nem a autoridade natural de Amadeo, foi um homem isolado no espaço geográfico europeu, demasiado “português” mas decididamente rebelde. Eloy pintou e desenhou uma profusão de auto-retratos carregados de “pathos” e de intensidade psicológica. É neles que é possível detectar as influências que o regeram e acompanhar a sua evolução, tanto psicológica artística, funcionando como pontos de viragem na sua atribulada existência, tanto pessoal como criativa.

 

 


publicado por felismundo às 07:00
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2 comentários:
De emiéle a 8 de Agosto de 2009 às 09:35
Só passo de fugida para matar saudades dos teus posts, e este tem muito que ler e ver...
Talvez amanhã deixe um comentário mais extenso, porque merece, mas hoje estou um pouco a correr.
Bom descanso e beijinhos aos netos!


De felismundo a 8 de Agosto de 2009 às 11:57
Sei perfeitamente dos teus constrangimentos e fico feliz por, ainda assim, teres pachorra para me visitares.
Os meus netos estão belíssimos e dar-lhe-ei os beijinhos todos!
Quanto à pressa, foi tanta que nem petiscastes as Favas de Quinta-Feira...



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