Sexta-feira, 12 de Fevereiro de 2010

CESTAS DE POESIA

Volto à poesia popular e ao Alentejo, desta vez pela palavra de Domingos José Pinto e pelas Décimas, que apresentou ao Primeiro Prémio de Poesia Popular de Terrugem, numa orrganização do, Centro Cultural de Terrugem.

 

http://3.bp.blogspot.com/_FpGz-zNYFSI/SXihwXrDMwI/AAAAAAAALkE/mf3IprNotPQ/s320/ccTerrugem.jpg

 

MOTE

Ando a espreitar uma topeira
Lá dentro do meu quintal
Da caçar não há maneira
Esse maldito anima

 

I                                                  
Passo a noite passo o dia            
Até parece impossível                
Aquele animal terrível                
Com chuva ou com maresia         
Lá anda na galeria                     
Óu ela ó a companheira              
É daninha e traiçoeira                 
Lá no meio da escuridão              
Com a feramenta na mão            
Ando a espreitar uma topeira       

II
Quando ela as unhas aferra        
Lá vou eu com a enxada
Logo pela madrugada           
Alisar aquela terra                    
É um viver sempre em guerra      
Tomara dar-lhe o final                
Não há bicho que a igual             
Cava por todos os lados              
Vou tendo os alhos chupados       
Lá dentro do meu quintal            

III
Fura por todas as partes
É pior do que uma broca
A ver se encontra a minhoca
Lá na eira dos tomates
Sempre me foge aos encartes
P’ra debaixo de uma roseira
Passeia uma manhã inteira
Espreitando esses traidores
Já abrasado em calores
De caçar não há maneira

IV
Tinha lá uns pimentões
Que até dava gosto vê-los
Têm me arripiado os grelos
de lhe dar tantos pochões
Já me engelhou os feijões
P’ra mexer não tem rival
Tão pequena e só faz mal
Já brinca com o hortelão
P’ra furar é um furão
Este maldito animal

 

REMATE

Tém um pelo luzidio
Olheia com atenção
Palpeia com a mão
Não vi pelo mais macio
Senti logo um arripio
Lá à porta da morada
Meti-lhe logo a enxada
Quando estava descoberta
Ficou com as pernas aberta
E a boca ensanguentada.

 

Domingos José Pinto nasceu a 26 de Janeiro de 1925, na freguesia da Mina do Bugalho, no concelho de Alandroal. Foi padeiro, juntou gado, partiu lenha, ceifou e acarretou água. Também foi paquete, "na altura chamava-se um tardão mas eu não tardava muito a levar os mantimentos, era despachado e num instante levava o almoço aos ganhões". Aos nove anos já fazia décimas. Agricultor desde os quinze anos, aos dezasseis tratava das bestas e já ensinava a lida do campo aos homens mais velhos. Foi cabouqueiro de mármores durante vinte e um anos. Aprendia tudo o que podia com os ganhões. O pai recebeu uma carta que só terá sido lida ao fim de um ano, altura em que Domingos Pinto pediu a um rapaz que o ensinasse a ler. A partir desta data começou a ler as cartas que as ceifeiras recebiam. Nesta altura trabalhava na herdade da Granja do Bagulho e começava a escrever as suas décimas nas lajes. Aos cinquenta e nove anos fez a quarta classe.  "Sempre dei mais valor ao que os outros escrevem - e gostava de ir   desencabecinando os amigos para esta arte do falar versado".
 

http://www.portalalentejano.com/imagem_dia/wp-content/paisagem_alentejana.jpg


publicado por felismundo às 18:41
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2 comentários:
De Maria a 13 de Fevereiro de 2010 às 14:47
Domingos José Pinto e a sua arte - as décimas - que bonito, Zé, aprecio tanto...E fiquei a saber mais um termo do Alentejo - "Tardão " - tão engraçado - pois, para quem esperava pela "janta", pelo "comer", por mais rápido que ele fosse, seria sempre um Tardão "..;))


De felismundo a 16 de Fevereiro de 2010 às 12:33
Pois é Maria, a Poesia Popular, é uma caixinha de surpresas, que quando se abre,, nos trás sempre, estas agradáveis sensações.


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