Sexta-feira, 19 de Março de 2010

CESTAS DE POESIA

Trago-vos hoje, Fernado Pessoa, pelo boca do seu heterónimo, Alberto Caeiro.

Espero que gostem!!!

sinceridade

Deste modo ou daquele modo,

Conforme calha ou não calha,

Podendo às vezes dizer o que penso,

E outras vezes dizendo-o mal e com misturas,

Vou escrevendo os meus versos sem querer,

Como se escrever não fosse uma coisa feita de gestos,

Como se escrever fosse uma coisa que me acontecesse

Como dar-me o sol de fora.

 

Procuro dizer o que sinto

Sem pensar em que o sinto.

Procuro encostar as palavras à ideia

E não precisar dum corredor

Do pensamento para as palavras.

 

Nem sempre consigo sentir o que sei que devo sentir.

O meu pensamento só muito devagar atravessa o rio a nado

Porque lhe pesa o fato que os homens o fizeram usar.

 

Procuro despir-me do que aprendi,

Procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram,

E raspar a tinta com que me pintaram os sentidos,

Desencaixotar as minhas emoções verdadeiras,

Desembrulhar-me e ser eu, não Alberto Caeiro,

Mas um animal humano que a Natureza produziu.

 

E assim escrevo, querendo sentir a Natureza, nem sequer como um homem,

Mas como quem sente a Natureza, e mais nada.

E assim escrevo, ora bem, ora mal,

Ora acertando com o que quero dizer, ora errando,

Caindo aqui, levantando-me acolá ,

Mas indo sempre no meu caminho como um cego teimoso.

 

Ainda assim, sou alguém.

Sou o Descobridor da Natureza.

Sou o Argonauta das sensações verdadeiras.

Trago ao Universo um novo Universo

Porque trago ao Universo ele-próprio.

 

Isto sinto e isto escrevo

Perfeitamente sabedor e sem que não veja

Que são cinco horas do amanhecer

E que o Sol, que ainda não mostrou a cabeça

Por cima do muro do horizonte,

Ainda assim já se lhe vêem as pontas dos dedos

Agarrando o cimo do muro

Do horizonte cheio de montes baixos.


publicado por felismundo às 08:00
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5 comentários:
De Emiéle a 19 de Março de 2010 às 19:25
O que dizer?
É Pessoa.
É Alberto Caeiro.
E creio que seja o nosso poeta mais conhecido depois de Camões. Não é por moda é porque de facto é genial.


De felismundo a 19 de Março de 2010 às 19:51
De facto, para o PESSOA, não há palavras ou melhor, elas nunca acabam!!!


De zegarr a 20 de Março de 2010 às 01:15
Pois é BOM, é GRANDE, é PORTUGUÊS.
Temos muito de que nos orgulharmos.
Viva a qualidade do que aqui publicas.


De felismundo a 20 de Março de 2010 às 10:34
Eh! Mano!
Grande elogio, até me sinto envergonhado, pois só faço o que é preciso!!!


De silvya a 26 de Março de 2010 às 21:14
fernando pessoa.
gosto muito. dele e de todos eles.
são um manancial de cultura, e que inspira e solta a imaginação.
gosto muito do poema opiarium entre outros, mas também por exemplo o mar de sargaços.
identifico-me muito com ele.
bjo
silvya
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