Sexta-feira, 23 de Junho de 2006

Voltando aos Hinos

Ainda anda na memória de todos, a douta decisão de um, não menos douto, juiz que não atribuíu a uma cidadã do mundo, indiana de nascimento, a nacionalidade portuguesa, por não saber o hino.
Sabemos, todos, como bem o cantam: Scolari; Deco; Aníbal; Maria e outros.
Também já o afirmámos que, de certeza, o não sabem todo, quando muito, a primeira das três estrofes, que o compõem.
Mas, não é isso que hoje aqui me trás, antes o que são, porque são, e o que representam, se é que, os hinos, representam alguma coisa.

Socorro-me de um escrito do insuspeitável Porf. Arnaldo Saraiva, datado de 1973.

" Para os gregos, que tanto o cultivaram e dignificaram, o hino era, fundamentalmente, um poema cantado de louvor aos deuses, ou ao que de bom se supunha que eles tinham legado aos homens; era a amelhor Voz humana - música e palavra - da alegria de viver.
Talvez seja discutível que os homens mudaram muito depois dos gregos; mas do que não há dúvida é que mudou muito o conceito de hino, sobretudo quando se inventaram os chamados «hinos nacionais». Porque o que era, fundamentamente, expressão de alegria de viver se transformou, fundamentalmente, em exprssão de alegria de morrer - e de matar.
Em teoria, os hinos nacionais deveriam ter nascido com o nascimento das nações. Sabemos, porém, que, para se criarem e desenvolverem, as velhas nações europeias, por exemplo, precisaram decerto de alguns cânticos guerreiros - que todavia não precisaram de oficializar - , como precisaram da invocação de alguns santos - que puseram religiosamente à bulha; mas precisaram antes de mais da força de alguns princípios, de algumas inteligências de uns braços.
Se de repente essas e outras velhas e novas nações, tal como veio a suceder às Nações Unidas e agora à Europa, se viram na necessidade de oficializar hinos nacionais ou supranacionais, é caso para perguntarmos se não foi porque faltou aos seus filhos - como se diz dos que também são ou deveriam ser seus pais - a força dos braços, das inteligências e dos pricípios. É caso para perguntarmos se se pertendeu compensar o pouco uso dos braços pelo da garganta, o da inteligência pelo da habilidade vocal, o dos princípios pelo da cantoria. Ou por outra: se a necessidade de criar e oficializar um tal símbolo não surgiu exactamente quando se pressentiu o enfraquecimento ou o artfício do simbolizado.
Que pertendem simbolizar os hinos nacionais? Naturalmente a unificação, a unidade, a união entre os homens nascidos ou situados dentro de certas fronteiras geográficas ( muito mais do que dentro de certas fronteiras ideológicas, ou religiosas, ou políticas).
Cantar um hino nacional seria ao mesmo tempo praticar e apelar para essa união, unidade, unificação - quer dizer, tentar garantir a sobrevivência de um grupo. E mais: figurar certos desejos, impulsos, sentimentos (que poderiam ir da simples dignidade humana à grandeza e ao heroísmo), iludir certas impotências, e exorcizar certos medos e fragilidades, fisícas ou morais.
Assim, os hinos nacionais pretenderiam moralizar (compatriotas) desmoralizando (estrangeiros) antes que uns e outros praticassem imoralidades. E, por esse lado, eles seriam o que efectivamente têm sido: autênticos textos «sagrados», indiscutíveis, intocáveis.
Temos hoje, porém, boas razões para duvidar de que eles sejam textos «sagrados». A primeira é até a de eles nos serem apresentados ou representados como tais; sabemos bem como os tabus são próprios de sociedades primitivas (subdesenvolvidas), como eles contribuem para garantir a existência de privilégios, e como o «sagrado» funciona frequentemente como pseudónimo ideológico das mais profanas ideologias. A segunda razão é a de já não concebermos facilmente as possibilidades de união e de sobrevivência para os que se fecham em fronteiras geográficas; é evidente que por todo o mundo, com poucas excepções, aliás sintomáticas (Médio Oriente, África), a ideollogia e a economia estão a substituir a geografia. Hje os inimigos «nacionais» já não podem ser contidos ou combatidos nas fronteiras: eles estão por toda a parte e até se conhecem outras guerras sem ser a guerra de guerrilhas (as guerras económicas, por exemplo). E até cantam os hinos nacionais. Num tempo de guerrilhas, de comunicações fáceis, de turismos, de migrações, de plurilinguismos, de bi ou trinacionalismos, de Nações Unidas, de Mercados Comuns, de empresas multinacionais, a existência de «hinos nacionais» não pode deixar de ser sentida, na melhor das hipóteses, uma manifestação folclórica, ou como preciosidade arqueológica, e, na pior das hipóteses, como requintada hipocrisia, ou como insulto e provocação."

É este o excerto que vos quero deixar hoje, para que o leiam o analisem, o interpretem e o discutam.

publicado por felismundo às 13:39
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