Sexta-feira, 11 de Junho de 2010

CESTAS DE POESIA

Fernando Assis Pacheco nasceu em Coimbra em 1 de Fevereiro de 1937. Licenciou-se em Filologia Germânica na Universidade de Coimbra, cidade onde viveu até 1961, ano em que foi para a tropa. Durante a adolescência foi actor de teatro e redactor da revista Vértice. Foi expedicionário em Angola pelo que, à data da publicação do seu primeiro livro, Cuidar dos Vivos, ainda se encontrava no continente africano. Foi um brilhante tradutor, tendo vertido para língua portuguesa obras de Pablo Neruda e Gabriel García Márquez, entre outros. O seu nome nunca será esquecido no mundo do jornalismo, tendo trabalhado no JL-Jornal de Letras, Artes e Ideias, n'O Jornal, na Visão, no Diário de Lisboa e no República. As suas principais obras de poesia são Cuidar dos Vivos, Memória do Contencioso e A Musa Irregular. Em prosa deixou-nos obras como Walt e Trabalhos e Paixões de Benito Prada. Faleceu no dia 30 de Novembro de 1995, em Lisboa, à porta da livraria Buchhölz.
Na colecção «Obras de Fernando Assis Pacheco», a Assírio & Alvim publicou até à data: Respiração Assistida [2003], Memórias de Um Craque [2005]), A Musa Irregular [2006], Walt ou O Frio e o Quente [2007], com capas sobre desenhos de Bárbara Assis Pacheco, filha do autor.

Monólogo e explicação

Mas não puxei atrás a culatra,
não limpei o óleo do cano,
dizem que a guerra mata: a minha
desfez-me logo à chegada.

Não houve pois cercos, balas
que demovessem este forçado.
Viram-no à mesa com grandes livros,
com grandes copos, grandes mãos aterradas.

Viram-no mijar à noite nas tábuas
ou nas poucas ervas meio rapadas.
Olhar os morros, como se entendesse
o seu torpor de terra plácida.

Folheando uns papéis que sobraram
lembra-se agora de haver muito frio.
Dizem que a guerra passa: esta minha
passou-me para os ossos e não sai.

Pacheco, Fernando Assis (2006), Musa Irregular, Lisboa: Edições Asa, p. 40-41

publicado por felismundo às 08:00
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Sexta-feira, 26 de Junho de 2009

CESTAS DE POESIA

 

  Guiarás o Povo

 

 

O meu coração é um navio

que te procura nos sete mares,

que à flor das águas vai e vem

gritando, atirando o teu nome.

 

O meu coração é um navio

que te procura mas não te encontra.

A Oeste, a Leste, a Sul, ao Norte

retesa as velas, mas não te encontra.

  
Envelheceram já muitas palavras.

Porém nada perdido, que este verde

coração se arruma como louco

sobre as ondas, e procura e procura.

 

Fernando Assis Pacheco
Cuidar dos Vivos (1963)
In A Musa Irregular
Lisboa, Hiena, 1991

   

 

 

 

FERNANDO ASSIS PACHECO

Nasceu em 1937, em Coimbra. A sua ascendência é galega pelo lado materno. Licenciado em Filologia Germânica, foi jornalista e crítico literário.

Estreou-se, em 1963, com o livro Cuidar dos Vivos. Em 1972, publicou Câu Kiên: Um Resumo, um livro com título vietnamita para escapar à censura fascista, reeditado quatro anos mais tarde como Catalabanza Quiolo e Volta. Outros livros se seguiram, até que, em 1991, o poeta reuniu o conjunto da sua poesia, produzida ao longo de vinte e oito anos, num volume único intitulado A Musa Irregular. A sua obra conta também com algumas incursões na ficção.

Assis Pacheco faleceu em 1995.

 

Outros títulos:

 

Memória do Contencioso e Outros Poemas (1980) - poesia

Walt (1978) - ficção

Trabalhos e Paixões de Benito Prada (1993) - ficção

 

 

A Musa Irregular - um dos 100 livros do século.

 
   
 
 

publicado por felismundo às 07:00
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