Sexta-feira, 13 de Fevereiro de 2009

CESTAS DE POESIA

Tenho uma amiga que sem nada me pedir, suscitou-me a necessidade de publicar, neste espaço, um poeta, demasiadamente esquecido, para não ser referênciado.

Obrigado AB!

Depois, ele, como nós, era alentejano,

Refiro-me a ANTÓNIO GANCHO!

 

Um poema de António Gancho

antonio_gancho.jpg

 

Música

A música vinha duma mansidão de consciência
era como que uma cadeira sentada sem
um não falar de coisa alguma com a palavra por baixo
nada faria prever que o vento fosse de azul para cima
e que a pose uma nostalgia de movimento deambulante
era-se como se tudo por cima duma vontade de fazer uma asa
nós não movimentamos o espaço mas a vida erege a cifra
constrói por dentro um vocábulo sem se saber
como o que será
era um sinal que vinha duma atmosfera simplificante
silêncio como um pássaro caído a falar do comprimento.

António Gancho (1940-2006)

 

Nota:

Em 4 de Janeiro de 2006, o D.N. , na sua rúbrica "Artes", escrevia assim:

 


obituário
António Gancho
escritor

Morreu o "poeta nocturno"

"Os meus livros, leiam-os e depois digam-me alguma coisa", escreveu. Morreu no Telhal, onde escrevia e vivia há 38 anos

isabel lucas
   
Dizem que morreu a rir e diz-se que foi de ataque cardíaco, na passada segunda-feira, após 38 anos de internamento na Casa de Saúde do Telhal. Pouco se sabe acerca das circunstâncias da morte do poeta 'louco', como pouco se soube da sua vida e da obra, escrita integralmente no manicómio. "Foi muito mal tratado pela sociedade. É mais um caso de abuso psiquiátrico, de miséria nacional e institucional", disse ao DN o pintor Álvaro Lapa, conterrâneo de António Gancho, que lhe arranjou editor quando o então novel poeta o informou de que tinha um livro por publicar. "Era um homem de grande lucidez poética", como o retrata Manuel Rosa, da Assírio & Alvim, a editora que publicou aquela que é considerada a grande obra de António Gancho, O Ar da Manhã, em 1995. Um livro que, segundo o poeta, "são quatro livros" num volume O Ar da Manhã, Gaio do Espírito, Poesia Prometida e Poemas Digitais de onde se destaca este "Noite, vem noite sobre mim sobre nós/ dá repouso absoluto de tudo/ traz peixes e abismos para nos abismarmos/ traz o sono traz a morte..."

António Luís Valente Gancho nasceu em Évora em 1940 e desde os 20 anos que correu várias instituições psiquiátricas. Dizia ser Luiz Vaz de Camões, Bocage, Kafka, Pessoa e todos os escritores que admirava. Dizia ainda que não sabia por que escrevia, que o escritor "só pode ser escritor quando já nasceu escritor" e que "a imaginação é tudo. É ela que deve estar ao comando da inspiração, quero dizer, a inspiraçao deve comandar a imaginação do autor, do escritor, do poeta." (in A Phala, n.º45).

Gancho tinha então 45 anos e foi apresentado como uma "revelação sólida da poesia". Antes, já Herberto Helder o dera a conhecer, com uma selecção de 11 poemas, em Edoi Lelia Doura das Vozes Comunicantes da Poesia Moderna Portuguesa (Assírio & Alvim). E é a Herberto Helder que Manuel Rosa recorre quando se lhe pede para classificar a poesia intensa e de matriz surrealista de António Gancho "Era um poeta nocturno". Álvaro Lapa fala de "uma poesia nada construída, muito espontânea".

publicado por felismundo às 07:00
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8 comentários:
De Emiéle a 13 de Fevereiro de 2009 às 08:32
Ui, Zé Palmeiro, uma pessoa fica sem ar. De uma penada falas logo de dois que desaparecerem, o António Gancho há mais tempo, o Álvaro Lapa há dias.
São pessoas que desaparecem mas deixam muito para serem recordadas, ou seja, «continuam cá».
Eu não conhecia pessoalmente nenhum deles, mas tinha ouvido a história do Gancho como muito impressionante.
Há vidas que eram temas para romances belíssimos.
O seu poema ou texto poético que aqui deixaste é impressionante.
.....
E conheço o Telhal.
Afinal o que é isso de «saúde mental»? quem a tem?



De felismundo a 14 de Fevereiro de 2009 às 21:11
As duas perguntas que deixas, no final do teu comentário, são a melhor homenagem que lhes podemos prestar.
Outras, será termos esta postura, de divulgação das suas obras, situação que nos engrandece e nos torna mais humanos e solidários


De inframodal a 13 de Fevereiro de 2009 às 12:31
Olha, desconhecia o Poeta, que é isso mesmo, um POETA! Noto-lhe alguma irreverência, não só temática como até no linguajar... interessante!
E, já agora, quanto mais não seja pelo facto de ser alentejano, merecer-me-á uma atenção redobrada a partir de hoje.


De felismundo a 14 de Fevereiro de 2009 às 21:17
O facto de ser um poeta "maldito", somado ao facto da sua situação mental, que o tornou utente permanente do Telhal, levou a esse "esquecimento" que promoveu o desconhecimento que referes. Agora, já sabes, mais "UM" do Alentejo. Quanto à sua obra, tirando o que o Herberto conseguiu salvar, duvido que se encontrem por aí alguma coisa, no mercado, a não ser nalgum alfarrabista, mas duvido, da sorte.


De ab a 13 de Fevereiro de 2009 às 18:21


Não podia deixar passar em branco.A última vez que vi o António foi numa tasca do Largo da Misericórdia onde se reunia uma gente sob a égide do Herberto.Fiquei na dúvida se era ele ou não, mas ele não hesitou.Veio direito à minha mesa,sentou-se e começou a falar.E falava assim como escrevia.Uma "outra linguagem".Conhecia-o desde sempre.Entendiamo-nos bem.Do único livro publicado só tinha um exemplar que dei a um outro amigo que também já não está entre nós.Mas ficou a memória e a sagrada "ciencia" do Herberto ao inclui-lo no Edoi lelia Doura.AB


De felismundo a 14 de Fevereiro de 2009 às 21:21
Não me digas que foi naquela junto à saudosa "LIBRIS" do Telmo, foi?
Era um Largo mítico, eu reunia na Libris, com o António José Forte e demais companheiros da Fundação Calouste Gulbenkian, pois era lá que funcionava a sede do nosso Sindicato.
Gostei muito que me tivesses visitado, obrigado!


De felismundo a 14 de Fevereiro de 2009 às 21:24
Volto só, para endereçar o meu comentário.
Logicamente que era para ti, A.B .


De AB a 15 de Fevereiro de 2009 às 11:00
Exactamente.Agora já não é dos mesmos donos e deixei definitivamente de lá ir depois do suicidio e demais tragédia do Dácio.Mudaram-se para outro dos lados do Triangulo das Bermudas-as Galegas-mas o meu "estomago" tem limites.Quanto ao livro do Gancho está mesmo esgotado(a edição era pequena)e pronto não creio que para lá das inclusões antológicas do Herberto possa a vir a ser reeditado.AB


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