Sexta-feira, 22 de Maio de 2009

CESTAS DE POESIA

 

Fernando Pessoa, desenho de Júlio Pomar


O que há em mim é sobretudo cansaço

O que há em mim é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.

A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto alguém.
Essas coisas todas.

Essas e o que faz falta nelas eternamente;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço, Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada -
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...

E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço.
Íssimo, íssimo. íssimo, Cansaço...

Álvaro de Campos


publicado por felismundo às 08:45
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6 comentários:
De Maria a 22 de Maio de 2009 às 16:16
Pois é também às vezes me sinto assim:)

Cansada de não atingir o que para os outros é tão fácil- "eles" deixam-se à vida - eu fico na minha concha, ruminando as minhas intranquilidades, dúvidas, o medo do fracasso - que me paralisa e me afasta cada vez mais deste mundo que não me revejo!


De felismundo a 22 de Maio de 2009 às 22:10
Maria, como me sinto confortado!!!
Sabes que é bom encontrarmos, estes pontos de contacto, ténues, eu sei, mas ao mesmo tempo fortes, também.
às vezes, penso que será geracional, mas não, "Pessoa(s)", assim há-os, felismente, em todas as gerações.
Ler o teu comentário, fez-me revigorar e não me sentir, cansado!!!


De Emiéle a 22 de Maio de 2009 às 18:18
O Álvaro de Campos de uma ponta à outra é uma aposta ganha para se escolher seja que poema for. Quase podemos abrir o seu livro de poemas ao acaso e seja o que for que leiamos é excelente (eu sou daquelas devotas incondicionais!)
E depois tem sempre a palavra certa para os sentimentos de frustração, desânimo, revolta, desapontamento..
Hoje (como já viste pelo post que deixei no Pópulo e era um tanto irritadiço) identifico-me mais ainda do que de costume com esta poesia.


De felismundo a 22 de Maio de 2009 às 22:13
Pois foi exactamente, depois de ler os teus escritos dos últimos dias, que me senti transportado para o Ávaro de Campos e para este poema, concretamente


De inframodal a 22 de Maio de 2009 às 23:43
Capos... Pessoa e uma dimensão ôntica do ser, que perante a infalibilidade da vida e a certeza de que tudo o que acontece, aconteceu por acontecer. Tautologia... não, apenas a irrefragável, a quase insustentável leveza de existir sem subterfúgios ou encantamentos de ocasião.
Campos... Pessoa e um pouco de nós todos neste belíssimo poema!


De inframodal a 22 de Maio de 2009 às 23:44
Campos... Pessoa e uma dimensão ôntica do ser, que perante a infalibilidade da vida e a certeza de que tudo o que acontece, aconteceu por acontecer. Tautologia... não, apenas a irrefragável, a quase insustentável leveza de existir sem subterfúgios ou encantamentos de ocasião.
Campos... Pessoa e um pouco de nós todos neste belíssimo poema!


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