Sexta-feira, 26 de Maio de 2006
Recebi umas fotos do meu neto João e estava na disposição de fazer qualquer coisa com elas.
No entanto, há coisas que nos desandam os pensamentos, levando-nos para outros caminhos.
TIMOR é hoje o meu tema de conversa e como aquilo vai, nada melhor que fazer uma coisa diferente.
Então veio-me à memória uma passagem do livro de Joaquim Pulga, "ALENTEJANANDO - estórias e sabores", que passo a, com a devida vénia, transcrever:
DESCONSTRUÇÃO DO IMPÉRIO
Os Alentejanos Têm Fama De Ser Um Povo Hospitaleiro, amigo do amigo. Adoptamos fraternalmente como nossos todos aqueles que aqui buscam forma de vida e connosco labutam. Tenho igualmente por certo que estes "alentejanos novos", facilmente se reconhecem e interiorizam como gente deste sul. Mesmo aqueles que por breve aqui passam, encantados ficam com a magia desta terra e destas gentes. Quando partem, parte na sua companhia a alma da terra transtagana e, na estatÃstica da memória, é mais um alentejano da diáspora. Este sentimento é profundamente sentido pelos amigos que por este sul já andarilharam.
Assim aconteceu com o Hélio, amigo timorense do peito que nesta terra estudou agricultura, se fez alentejano e combatente pela liberdade de todas as terras do mundo. Irmanados na desobediência "desconstruÃmos o Império"e, sobre as suas cinzas, construÃmos um imaginário de uma mão cheia de paÃses unidos pela lÃngua e pela necessidade de caminharem rumo a um futuro de fraternidade.
Tempos de revolta e esperança, idos com a primeira metade da década de setenta. O Hélio, já após Abril de setenta e quatro, terminou o curso e abalou, levando consigo o Alentejo e uma enorme vontade de ir ajudar no parto do seu PaÃs. Nunca mais revi aquela pequena grande figura de cabeleira afro, cigarro ao canto da boca e uma permanente e insurrecta alegria. Pouco tempo mais tarde, chegou a dolorosa notÃcia - o companheiro Hélio não mais iria assistir ao nascimentodo paÃs Timor. CaÃra em combate contra o invasor indonésio, algures, nas montanhas da sua terra. Com o Hélio, morreu também mais um alentejano da diáspora.
Esta é a minha singela homenagem ao meu amigo, pequeno-grande alentejano dos quatro costados e companheiro assÃduo da comunhão nas "mesas da malta". Gastrónomo inveterado, nada "bical", amante co copo e do cante. Delirava sobremaneira com os petisquinhos à volta da carniça de bacorinho alentejano.
MIGAS DE BATATA COM LOMBO DE PORCO
1 kg de lombo de porco preto
100gr de banha
2dcl de vinho branco
1 cabeça de alhos
massa de pimentão
1kg de batatas
1 dedal de vinagre
1 folha de louro
sal
No almofariz pisam-se os alhos juntamente com o sal. A esta massa junta-se o pimentão e o vinho branco. Com o preparado anterior barra-se o lombo, entretanto cortado em cubos grandes, e deixa-se a tomar gosto até ao dia seguinte.
Num tacho de barro, em lume brando, frita-se o lombo na banha com a folha de louro. Após a fritura, retira-se o lombo para a travessa. À parte, cozem-se as batatas e reduzem-se a puré. No molho que restou da fritura e após retirar o louro, introduz-se o puré de batata. Com uma colher de pau vão-se mexendo e enrolando as migas até alourarem. Deita-se o dedal de vinagre e corrige-se o sal. Depositam-se as migas no centro da travessa com a carne frita em volta. Enfeita-se om rabanetes e azeitonas.
Em memória do meu amigo, tomemos esta refeição acompanhada de um tinto puro e duro, daqueles que alegram o espÃrito dos insurrectos e acendem a fraternidade.
Hoje dispenso a sobremesa, quero apenas um café de Timor e uma aconchegante aguardente.
Na mesa da malta, está uma cadeira vazia...
É este o texto que eu humildemente deixo, neste dia em que as notÃcias nos dizem que em Timor, as coisa não vão bem.
De
andré a 28 de Maio de 2006 às 15:14
Bom texto, onde foste encontrar esse livro?
Desconhecia esse "ALENTEJANANDO", mas parece-me de interesse, depois mostras, ok?
Um abraço e um desejo: Que não haja necessidade de mais "Hélios", e que a Paz retorne a esse paÃs martirizado.
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